sábado, 31 de outubro de 2009

uns mal, uns bem, uns nada além

Um amigo mandou Quando você saiu, eu fiquei pensando: Será que essa menina nunca fica triste, mal humorada, estressada?

Não respondi até agora.
Nem sei se é pra responder.

Mas eu queria dizer NÃO!

Se fosse meia verdade podia.
Mas sou um bicho.
Um bicho trabalhadinho.
Quando com tempo. Sem ameaça.

Os instintos me entregam.

Lipe dizia que não podia jamais estar com Tito no colo e aparecer um bicho voador.
Sempre tem uma voz que diz: É só um bichinho.
Não há coisa mais nervosa e tensa que bicho que voa.
Bicho me faz correr, mais ainda com asa, que bate em tudo, fazendo barulho de asa nas coisas.
Quando eu corro de um bicho desse eu quebro coisas.
Se tenho algo na mão me livro logo pra não atrapalhar a corrida.
Se tenho um filho no colo talvez lance pra algum lugar.
Uma vez quebrei um ventilador em dois pedaços por estar no trajeto da fuga.

Eu não sei pensar.
Meu normal não é pensar.
Eu me esforço, preciso de tempo.

Outtra vez tava com minha amiga de infância, lá do sul, com cara de europa, subindo pra Santa Teresa.
Quis ir à pé.
Me acho inroubável.
Tenho a impressão que piso firme, olho forte e crio cumplicidade com toda gente.
Nunca tinha sido assaltada.
Eu branca de cegar, e uma polaca de olho azul que parece mentira.
As duas de casaco curitibano.
Subindo Santa Teresa à pé.
Depois da moça avisar Sobe não, pega a Van.
Pisando firme.
Eu percebi os dois vindo, dois grandões.
Tive tempo.
Pensei.
Fui até uma casa e apertei a campainha.
Eles passaram.
Um tempinho, resolvemos subir.
Viramos a esquina e os dois descendo: Assalto!
Ameaça, sem tempo.
Deixei minha amiga Curitibana de olho azul de mentira e fui mais rápida que quando bicho com asa.
Minha amiga gringa só esticou a mão, entregou a bolsa.
Eu no maior sufoco.
Correndo do grandão. Socorro!
Vi um carro e uma mulher saindo.
A única alma que vi mexer fora a nossa.
Ela trancou a porta.
Eu corri pro outro lado. Socorro!
Ele desistiu de mim.
Levantou a mão, falou Tranquilo pra mulher.
Os dois desceram e ela abriu a porta pra mim e pra minha amiga que abandonei.

Sou uma besta.
Não tenho moral.
Profunda não.
Sempre que alguém diz que estou errada eu concordo.
Não tenho convicção sobre certo e errado.
Nunca aprendi.

A chance de estar errada é grande.
Principalmente essas coisas que a gente tem que saber, lados, pessoas, grupos que sempre estão certos, outros sempre errados.

Não acredito que o ser humano está pior, não acredito em mundo justo, igual.
Acho, como achista convicta, que sempre foi assim, vezes pior, vezes melhor.

Em qualquer lugar tenho a impressão que sou de fora.
Que cheguei depois.

Tem uma cidadezinha que sempre íamos, onde os moradores somem com bandido.
Eu não sei dizer errado. Nem certo.
Não sei.
Só sei dizer que não gosto de morte, nenhuma.
De lado nenhum.

Não sei dizer praquele ex-aluno, que morava no morro e se dizia a favor do tráfico pois era comunitário, que ele estava errado. Não tenho convicção em nada. Posso acreditar em tudo.

Quando adolescente era uma das líderes, quase sempre.
E estudava em uma escola de gente rica, de valor sem valor, estudo sem conhecimento.
Fui muito ruim, tive posturas ruins, aprendi a ser mais gente depois de velha.
Morria de vergonha do que sempre fui.
Por isso sempre dou razão.
Entendo a ignorância da maldade.

Hoje não sou mais assim.
Se faço maldade é consciente.

Nem tenho mais vergonha de ter sido como fui.
Por pensar que talvez tenho mais do que se tivesse sido outra.

Não me meto em discussão de lados.
Só sei ver um por um.
Não tenho cancha pra grupo.
Sou pequeníssima.

Aqui em casa elas perceberam.
Que não mereço respeito. Que fico puta, estressada, jogo meu filho se precisar.
Fui pegar a leiteira e tinha uma delas lá dentro, com a cabeça de fora.
Uma barata na minha leiteira com a cabeça de fora.

Só agora elas fazem assim.
Nunca foram tão cruéis quando era casada.
Agora riem de mim.
Ocupam a casa às gargalhadas.

Eu queria só dizer da pergunta do meu amigo.
E dizer que sim, muitas vezes pior.
Quem me vê de perto sabe.
Peço desculpa, sempre peço.

2 comentários:

Tatiana Telink disse...

Um dia, num futuro bem longínquo, devem publicar crônicas suas selecionadas, dessas que se juntam em grupinhos de tema. Depois da morte de um artista famoso, sempre fazem isso não sei porque. Mas não importa. Tenho para mim que haverá um capítulo só dedicado à autora e suas histórias com baratas. Nada mais kafkiano. Acho chique! Sua fã, Tatoca

Marcos Braz disse...

Tá ficando bom de novo!