quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

último gole ao ano das quedas (e erguidas)

Um beijo enorme a cada um que de alguma forma me acompanhou e ajudou a de novo estar simples, leve e boba.
Ano lindo a todos!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

seja rico, seja pobre

Durante todo o dia, vejo as coisas e escrevo, escrevo sem sentar e escrever, faço texto e idéia sobre o que vejo enquanto vejo.
Tenho tido momentos muito fortes com meu filho, de tremer, de gargalhar de boca aberta e todos os dentes até chorar com som de risada.
Quero registrar de alguma forma, materializar essas sensações, chegar de algum jeito onde chegam em mim.
Mas entendi.
Não chego.
Não vou chegar.
Em pé não.

Fumante não senta mais.
Muita área livre.

Mas gente, não se pode fazer assim, pode?
Quando vai mudar a mão de uma rua, precisa outra opção pra então mudar.
Uma obra na rua faz com que outro trajeto funcione enquanto ali não.

Como é que um lugar que não tem banco de rua, nem cesto de lixo e só tem falta de praça pode fazer assim?

E vai te fazendo acreditar.
Tava almoçando com Tito naquele lugar em frente ao Campo São Bento, onde se bebe cerveja, fuma. Cadeira na calçada. Os fumantes com cadeiras pra lá do toldo. E veio fumaça na gente. Olhei pra lá na hora. Nervoso, pediu desculpa, de jeito vira-lata, foi indo mais longe. Eu não consegui mudar, dizer que eu queria que ele voltasse, que não fizesse assim.

E como é que não tem a opção de um lugar ser só de fumante?
Como é que não?

Mulher. Pedestre. Fumante.
Pra onde é que eu quero ir?
Só posso ir.

Quando é que eu posso parar?
Sentar, acender um cigarrinho, tomar um negocinho?

sábado, 19 de dezembro de 2009

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Bem que isso podia nunca mais ter fim

Dormi depois, acordei antes.
Como sempre quando apaixonada.

Olhando pra ele, espalhado como se um metro e noventa.
Boca aberta.
Cheguei perto pro cheiro da boca que cheira bem, apesar da saliva parada.
Uma hora.
Ouvindo, vendo, cheirando.

Foi acordando.
Virando, enfiando as pernas debaixo de mim, as mãos.
Virou do outro lado, mais de uma vez.
Escuto "minhoca, minhoca..."
Volta o sono que sei pelo som de quem não pensa pra fazer.

Vira de volta, de frente pra mim.
Fecho o olho como aprendi a fazer de um jeito que vê.

Estica o braço, passa a mão na minha cara, de levinho.
No meu braço.
Não tira o olho de mim, como fiz há pouco.
Senta.
Procura meu peito pra enfiar a mão.
Se levanta mais, não consigo ver sem mexer a cabeça.
Uns tapinhas na minha bunda "boi, boi, boi...preta..nino...êta".

Virei pra ver, olho aberto, rindo.
Riu como se acordasse de verdade enquanto ria.
Levanta minha blusa, a dele, deita barriga com barriga.
Estica o dedo machucado "Bêju". O outro "Bêju". Bico "Bêju".
"Abraço".

Pega meu óculos, sempre pega, e entrega.
Acha a sandália, obsessivo nela sempre.
O livro dele que tava ali.
O meu, O meu não!

Um susto Meu deus, tenho um filho.

Nunca sonhei estar grávida.
E mesmo em mim sensação louca de grandeza.
Um corpo fazendo outro.
Nove meses, passar a ser.

Inteiro desde o início.
Mesmo na falta.
Parte do que se é inteiro.

Falta pra mim alcançar a sensação que não entendo.
Da parte minha maior que eu.

Em você me vejo mais que posso.
Falo só o que entendi.
Simples, me dá o que mal suporto.
Ocupa espaços que não cheguei.

Nem dois anos.

Grande como nunca vi ninguém.
Esqueço o tamanho.
E lembro.
E quando lembro mal sei falar.

domingo, 13 de dezembro de 2009

morre bebê de Helena e Marcos

Vivo encontrando notícia dessa sobre gente que não conheço e sem sobrenome.

Essa história de saber de coisas assim de gente que não sabe quem...
No facebook sinto que estou por engano.
Alguém diz: e nosso ano novo?
Não é comigo, não é.
Fica ali, como se fosse.
E sei das respostas.
Por que sei das respostas?

Uma diz que vai pra aula de street dance, outro que dormiu o dia todo.
Eu, como na janela, atrás do vidro sujo ou fumê.

Não sei, só me sinto íntima do que tenho intimidade.

Um dia, lembro das coisas não pelo que lembro, lembro da sensação forte.
De novo, um dia, um ex-namorado foi me buscar no teatro, e ficamos conversando dentro do carro, no estacionamento.
Ele tinha uma cara e jeito de quando a gente tem algo novo e parece demente.
Ele dizia sobre voyeurismo.
Não sabia o que era.
Me contou. Explicou.
Disse que umas pessoas fazem algo assim.
Gostam de olhar a intimidade de outras.
E fazia bem pra esse que olhava.
Disse mais uma quantidade de coisas, gostava de falar.

Não sei fazer como se não descobrisse.
Quando conheço o que não conheci me apavoro.
Não enxergo mais, não escuto, tropeço as palavras.
Páro de aprender.

O limite que tenho é um dado novo.

Como o dia que o professor na pós, de novo, na pós, disse que podia ser que o giz caísse ou o chão subisse.
Gargalhei.
Ninguêm riu. Olharam pra mim.
Ninguém se assustou.
Ri mais.
Não podia continuar ali.
Pedi pra sair.

Lá no carro não ouvi mais.
Nem tinha o que perguntar.
Além dali.

Pedi pra irmos prum café.
Bem cheio de gente.

sábado, 12 de dezembro de 2009

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

sua cara 11-12, Arthur Tuoto

Com Arthur Tuoto, via skype.
arthurtuoto.com

Hoje!

domingo, 6 de dezembro de 2009

que importância isso tem

Terminei o livro.
E então como se a vida na escrita.

Não tem mais o que escrever.
Não sei mais.
Toda frase parece boba, assunto, jeito.
Não que antes não fosse.

Não fazia por ser bom,
Ia fazendo.
Não sei, parou.
Foi parando.

Não tenho ficado tanto em casa.
Pode ser isso.

Não vejo tv há meio ano, também pode.

Depois de semanas ontem tinha mais uma na cozinha, sempre lá.
Planejo fechar, vedar janela e porta e ligar o gás.
Mas não me mexem mais.
Fiz dela minha última.

Desde o início do ano afundada.
Embaralhada, toda enroscada.
Derrapando pros lados.
Enchendo o saco de todo mundo.
Tudo grande, insuportável.
Um drama.

Já tudo resolvido, tudo.
Problema mais nenhum.
Posso sentar pra ver o ano acabar.
Nenhuma questão mais.
Alisado, tudo alisado, sem dobra, fora as do corpo, que diminuiram também.
Até dos dentes tratei.

Faltam os 7 quilos.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

sua cara 04/11

Gabriel Sanna
nasceu em 1981 no rio de janeiro e aos 7 anos mudou-se pra belo horizonte, onde nos anos 90 participou de diversas bandas de punk autoral, dentre elas o clone de albuquerque, junto dos amigos mateus bahiense e wagner carvalho. em 2003 viveu em tokio, onde rodou seu primeiro curta, "o estrangeiro". no ano seguinte voltou a bh e fundou com dellani lima e rodrigo lacerda o coletivo "eu morri em 1999", que até hoje realiza diversos curtas e também alguns projetos para tv. em 2006 iniciou uma parceria com a escritora e psicanalista lucia castello branco, afim de produzir documentários sobre alguns sujeitos singulares da literatura em lingua portuguesa. em 2007 viveu em portugal, onde rodou seu segundo longa, "redemoinho-poema", e mais 4 curtas. de volta ao brasil, foi morar no rio de janeiro onde prepara, junto de lucia, o longa "mar interior", sobre a cantora maria bethania e sua relação com alguns escritores portugueses. está também filmando há dois anos seu primeiro longa-metragem de ficção, com lançamento previsto para 2011.


http://www.youtube.com/user/sannagabriel


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Estou chegando, há tempo, e talvez fique assim

Aí Magno me propôs terminar um roteiro dele que me mandou.
Eu quis.
Li depois.
E agora tenho que dizer que não contei.
Não contei pra ele porque esqueço.
Lembro que morro de medo de gente interessante quando me esbarro nelas.
O escrito, as pessoas ali são interessantíssimas.
Fico fascinada e só fascino.
Não sei falar, não sei fazer, reconheço, só reconheço e fascino.
E que eu faço?
A vida pra mim é comuníssima, faço movimentos pequeníssimos, só entendo alguma coisa no afeto de hoje, não quero morrer jamais nem matar ninguém.
Como é que eu faço pra te contar que não dá pra dizer dessas pessoas que sabem de política, arte e américa latina e vivem de maneira que nunca vivi?
Onde é que posso se não entendo onde entrar?
Queria, queria mesmo te surpreender, mas como se me preocupo em devolver os cascos do Naldo, presto atenção em separar as palavras e como biscoito de chocolate?
Se escrevo o que sinto, filmo só o que vejo?
E me contento sendo assim.
Que não me indigno com o que tinha que indignar.
Que não me entusiasmo demais com o que seria de entusiasmar.
E me vanglorio de limpar minha casa todo dia, trabalhar, cuidar do meu filho sozinha.
O que leio, vejo, que é demais, me paralisa.
Quando encontro esses lugares que me deu, me perco e duvido.

Outras coisas tinham aqui que não contei.
Não consegui.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

pontinho vermelho boiando

O Turco esquece que não moro com ele. Que me matar? Por que some assim?
O Marcos acha que escrevo o blog pra ele. Não, não, assim não.
Não vejo mais minhas baratas. Cada uma que matei apagou uma luz da casa.
Não é a lâmpada, é lá dentro no fio que elas foram.
De cinco, três lugares da casa ficam no escuro.
A cozinha eu vejo pela luz da geladeira.
A sala pelo computador e a luminária.
O quarto do filho só de dia.

Tito chega em casa e repete luz, luz. E repete.

Tenho escrito só pra ocupar espaço.
Não aguento não ocupar.

Luz, luz.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

que acontece de repente

Dois lugares que não juntam falam de cada lugar.
De cá sem saber de lá, volta a se ver
Por saber que há o que ver no que ouve.
A imagem sem, soa várias.

Beleza certa de onde não tem.
Projeto pra onde não calça.
Se querer ali é saber onde não.

Ouvindo a mesma música,
procuro a imagem que não sei fazer,
Faz diferente que me perde.

A sensação confunde onde tá,
Confundo também.
Não sei, e quero.

domingo, 29 de novembro de 2009

queria querer toda flor de todo copo

Foi acordar como qualquer vez que se acorda.
Depois de amanhecido.
Um cheiro diferente, a cara pior.
Resto de coisa.
Pela casa procuro o líquido que fazia falta.
O copo de água na mesa.
Amanhecido também.
Algo que bóia.
Dada as costas, bebi da fresca.
De volta pra cama, culpa do excesso de sono.
Menor que o sono que fez dormir.
O alarme, o segundo, diz que não dá mais.
Levanto como se a primeira vez.
O cheiro, a cara, o resto, o copo ainda na mesa.
Dada as costas, lavar no banho a fumaça, mudar o cheiro, aquele resto.
Depois a casa, mudar o cheiro, tirar resto que sobrou.
O copo vazio, a água não bebi, a flor eu joguei.

guarda um cravo para mim

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Sua cara, 27 de novembro

video


É perturbador ter consciência de si,
ou se achar conhecedor.
Mas, ser inerte adoece
e contamina os desatentos.
Estar desatento funciona como um mecanismo de proteção
ao que pode lhe arrancar a cabeça.
(...)
A vontade de ser criador de sonhos
é a vontade de ser tranquilo e amável.
Talvez, seja esta a forma
que encontrei para ser amável.
(...)
Hoje eu não tenho um sonho,
amanhã não estarei dizendo isto,
nem serei este que aqui vos fala.

Carlosmagno Rodrigues

sampaio

domingo, 22 de novembro de 2009

Eu não tenho nada a ver com isso

Uma menina que mora aqui perto tinha nela um jeito de quem tem história pra resolver.
Não sei se chegou a falar, escutei o que disse e se não falou eu conto o que é.
Tinha lá outro alguém que não consegui enxergar, mas vi que tinha e não a escutava, não ouvia o que ela dizia.
Ela contou que não sabia mais.
Repetiu três vezes, eu ouvi.
Que tinha gostado de alguém, isso talvez não me disse.
E que ele, talvez homem, talvez outra dela, um bichinho ou um livro novo do Lourenço, não derramou borbulha por ali.
Então correu dias, 5 dias correu sem soprar, de peito cheio pra ir até lá onde não via.
De lá esticava o pé pra ver se vinha.
Sabia que não, sem saber o que dizia deixou pra ela o som dele pra escutar.
A corrida diminuiu e o passo seguia.
Pensava que ia em reta, segura da frente, do que não conhecia.
E a linha fez uma curva, sem querer a volta, seguiu a linha reta que vira.
Fez curva durante dias.
Os dias comemoraram meses, e ela ia, até palma batia.
Viu então um risco no chão que dizia de um dia, e nele ele e ela se viam.
Olhando pra trás pensou em voltar.
Mas se o risco era de um dia que não conhecia, talvez naquele dia ela ria e nem sabia.
Outro risco apareceu, disse a ela que se arrumasse, que ajeitasse os peitos e combinasse as partes debaixo e de cima.
Ela descombinada no que pensava, no que sentia, ergueu e trocou o que o risco mandou.
Três passos e ela sabia que era ali que fazia o dia.
Ela chegou e tinha lá o risco que dizia, daqui pra frente não tem mais guia.
Ele, que pode ser homem, outra dela, o bicho ou de ler, chegou depois.
Estava surpreso, olhava e não entendia.
Ela sabia, ela sabia. O risco safado aumentou a curva, meteu as partes em roda.
Mas ele tinha razão na arrumação.
E o dia passou, ela até ria, o ônibus que passou reparou, buzinou e deu bom dia.
O risco apareceu, disse que mais uma volta ela tinha.
Ela brigou, querendo dizer que queria mas que ele tinha que contar a ela o que tinha depois, onde não via.
Ele, que pode ser homem, outra, o livro ou um animal.
Mas quando? Perguntou se não podia voltar no dia da arrumação.
Tem que dar a volta toda pra poder chegar, levanta o peito e combina aqui com lá.
O risco passou. Ela gritava, sem saber se dizia, por que tanta volta? Cadê a linha reta por onde eu vinha?
Viu na frente alguém, deve ser o dia.
Quando pisou na linha não havia, sumiu.
Cansada e desarrumada foi confusa do que fazia, porque essa merda de tanta rima, que mania.
O risco apareceu no susto, pra defender a história que ele fazia.
Minha história é riquíssima, nem rima eu uso, menina, você escuta o que pode porque é estúpida, pequena e vazia.
E não falei vazia.
Chateados o risco escreveu . a menina pisou e esticou _
O risco de pirraça continuou, fazendo a menina andar e pular _ _ _ _
Não aguentava mais, queria parar.
Ele fez um sorriso de lado e escreveu, três passos pra levantar e arrumar.
E atrapalhada entre andar, vestir e erguer viu que lá na frente o risco dizia daqui pra frente adivinhação.
Fique aí, é aqui.
Ela sempre chegava, chegava, esperava.
Eu quero reta.
Ainda não.
E lá vinha ele que ele, ela, coisa ou aquilo, e a surpresa, por que a surpresa?
Tudo empinado, combinado como disse o risco ali pra trás.
O dia vira outro e o risco diz que mais uma volta talvez possa dar.
Eu não quero mais a volta pra chegar, berrou que todo mundo do prédio ouviu. Mesmo o que não sabia se havia mas via que não a escutava, vi que olhou na direção onde ela estava.
E gritou na cara de cada um com perdigoto que pulava dela pra lá:
Corri dias sem respirar, fiz reta, curva, pensei em voltar, pulei, li, ouvi essa chatice, via, sabia, levantei, ergui, combinei, chego, espero, faço, não quero mais me arrumar, não quero ter que provar, não topo mais essa volta, não quero ouvir sem dizer, não quero outro tempo que não o tempo que eu sei, não aceito mais esse, essa, isso ou aquilo assim, que não esteja caminho inteiro, não gosto mais que me diga se reta ou se curva, quero agora sair dessa porra de linha e andar pra qualquer lugar!
E foi aparecendo no chão:

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sábado, 21 de novembro de 2009

o lenço sujo agora enfrenta o jantar

E num dia atrás de alguns não tinha outra coisa que não fosse a coisa,
Era ela, ela e só ela era que,

Aflição em toda lombriga se a coisa única coisa não era, e fosse, seja, vai.
E não.

E se a coisa única coisa era agora a única coisa que não,
Vai vendo pra onde foi.

Escorregada da ida que não vinha,
Em socorro que vinha senão, se não vinha, adivinha.

Aí lá de lá onde não enxerga nem lá, tem o passo único passo, pra cá.
E às vezes volta, e ir, sem ir de volta
Sem saber como é que é que.
Outro lugar que veio,
Com cara de mesmo que não viu,
Como preservativo, dos poucos,
Faz a volta de toda vinda.

Cresce a vida se está, depois como se não tivesse,
E não pode porque não vai,
E não volta de volta pra onde foi quando chegou.
Pra onde?

terça-feira, 17 de novembro de 2009

o olho prateado virou a cara

O computador parou de funcionar há um tempo atrás.
Antes já tinha queimado o teclado.
Com algumas versões do caso.

E sem ele nada resta.

Lipe ficou de ajudar.
Tinha passado por isso, tinha uma tentativa pra fazer.

Chegou um dia que não aguentava mais.
Estava com ele no telefone.
- Tem que deitar o computador com a tela pra baixo.
Mas olha...
Pou!
- Não faz isso enquanto fala comigo.

Me conhece.

Não falei na hora.
Tenho vergonha desses impulsos.

Ao mesmo tempo que preciso de um buraco pra me enfiar, às vezes,
Ê o único jeito de alguma coisa andar aqui.
Bruta-uta.

Pausa.
Não acredito como as coisas riem de mim o tempo todo.
A luz da sala acabou de cair!
Caiu agora.
No meio da frase.

E já como se vivesse em acordo.
Continuo escrevendo.
Termino o chá.
Faço chá o dia todo.

A lâmpada espalhada.

Dúvida se continuo, se páro pra limpar.

Já venho.
Uma música enquanto isso.
A que tocava aqui, agora.



Quebrou.
Ficou coisa lá dentro, a bunda da lâmpada.
Não consigo colocar outra.

Casa.
Casa.

Barata se afoga, dorme na concha de olho pra fora.
Máquina de roupa pára de centrifugar.
Luz do quarto não funciona nem com lâmpada nova.
A outra se joga, a bunda enroscada.

É assim?
Sempre foi?

Eu chego a jurar que não caso mais.
Não pelo casamento.
Pela separação.
Não quero mais separar.
Nunca.
Nem morrer.
Venho conseguindo!

Mas parece que casa é feita pra ter dois gêneros.

Sem ismos.
Nem fêmeos.
Nem machos.
A bunda da lâmpada é pro homem.

Barata é do homem!

Se bem que Lipe e eu discutíamos pra ver quem matava as cascudas.
Não pode.
Barata é do homem.

Diz que discutia mas sempre matava.
Mas enquanto não decide vem adrenalina, medo, ansiedade de vencer.
Talvez tenha sido decisivo.

Com as próximas pessoas que conhecer vou perguntar.
Antes de qualquer coisa começar.
Não quero nunca mais separar.

Se não quero casar não devia ficar aflita.
Não sei dizer disso.
A barata já foi.
Só tem a bunda, da lâmpada.

Depois de cair com a tela na mesa fiquei me olhando nele, no computador.

Comecei passo por passo, conforme orientada.
O corpo transtornado.
Tenho desespero por concluir.
Me segurei.

E a vida é outra!
Tudo funciona.

Parecia estar em outra pessoa.
A vida aconteceu como nunca tinha visto.

Na faculdade era a pior aluna de maquiagem.
Começava com uma idéia legal no olho.
Depois outra ótima no queixo.
Mais uma perto da orelha.
O outro olho tinha uma cor assim.
O nariz uma textura.
E já não via mais nada.
Uma massaroca.

A professora sempre começava gostando.
Quando voltava ria, sempre.

O maior trabalho pra conseguir fazer minhas coisas é diminuir.

Esses dias estava fazendo o cartaz do cineclube.
Nessa sexta, cineclube.
Fazia com o Gus.
Ele fazia, eu esperava.

Aí disse, pra que isso aqui? (do texto)
Pra ser performático.
Acho demais, ele disse.
Tá, tira então.

E isso?
Estranho isso.
Tira, Gus.

Posso tirar isso aqui também?
Pode, tira.

Tem outra coisa...
Tira!

Ainda bem que eles existem.
Quero encher tudo de maquiagem.

Por isso nunca pude pintar, desenhar.
Ocupo o espaço todo.
Sem poder tirar depois.

Essa máquina aqui que me faz feliz.
Uma barbaridade de coisa e depois del del del

Assim também de outro jeito.
Falo demais.
Rio muito.
Alto.
Choro fazendo barulho.
Ou me engulo, sumo.

Por isso talvez precise tanto ficar sozinha.
Sozinha encho de silêncio.
Exagero.
Sempre exagero.
Tem o espaço todo pra entupir dele.

Numa brincadeira com o sobrinho uma vez achei genial o que ele fazia.
Pequeninho começou a dizer uma palavra com letra tal.
Eu dizia outra.
Ele outra.
Achei genial.
Outra.
Outra.
Outra.

Chega Mari.

Não sei parar.
Não sei ocupar a parte de cá vendo a outra em eco.
E esse texto eu não páro também.
Quero lembrar tudo.
Dizer todas as coisas que lembro, vou lembrando.
Mais chá, mais, mais
del del del

Bruta-uta.

a história do photo booth e a ex-atriz

video

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

sábado, 14 de novembro de 2009

meu amigo mais Veloso



"Como diria meu amigo Gabriel: "Muito me emociona" ver e participar dessa nossa arte.

Você é demais, seu talento cria realidades: faz perceber que vale a pena tudo, até tocar o meu humilde violão.

Recebi esta sua dádiva como um sopro de vida na nossa manhã.

Um beijo com amor,

João - o não-diplomata"

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Vivo que nem papel

Não sei como.

Veio uma.
E essa agora.
Essa outra de agora.

Quase dezembro.
Duas.

Segurando minha mão, me olhando bem
Preparada? Pode acontecer.
Sorrio, no limite, rio.
Marcado, temos pressa.

Bom dia!
Vez que detesto esse riso na minha cara.

Vamos lá?

Desce mais.
Bem perto daqui.
Usamos uma câmera e fazer o que for possível fazer.
Claro!
Inconsequente.

Puxa.
Já está aqui.
Vê?
Não tem mais jeito.
Está bem?

Pari meu DIU.
04/11/09.

--

Faço chá.
Dia todo faço.

Na próxima água,
Vejo.
Na panela que não lavei.
Ia lavar.

Agora não sei.
Preciso de ajuda.
Estou sozinha.
Quero alguém comigo.

Por favor, alguém comigo.

Se afogou.
Vi depois.
Tempo depois.
Movimento nenhum.
Agora nenhum.
Se jogou, sim.

Era uma, acabou.

Bóia na panela, na água que fez dentro.
Ia lavar.
Agora não sei.
Preciso de ajuda.

Era ela.
Concha, leiteira, no fim a panela.
14 de novembro de 2009.

Tenho também caminho de volta

Tenho também caminho de volta from Mariana on Vimeo.

Quem vem, chega, quem não, passou

Joaquim chegou!

Mãe, vira mãe assim que vira mãe.
E mãe é ser mãe em tudo que não era.
Nunca dei trela pra criança.
Bebê então, ria porque assim que faz.
Talvez por ser caçula, talvez por outra coisa.
E depois de mãe uma "mantegona".

Choro besta o nascimento.
E as histórias que parecem a mesma são uma só.
Joaquim tem a sua.

Além dele, Sérgio também chegou.
Do Peru, pro apagão.
Ontem na rua, fui vendo porque o mundo inteiro se apaixona por brasileiro.
Houve, ouve todas as tentativas de espanhol.
Ninguém faz isso!
Lugar nenhum.
Só a gente que é louco pra respirar um extra-Brasil.
Tão isolado que a gente fica, no português de todo lado.

Me lembro que quando fui morar longe dos meus pais, tinha 16 anos, descobri que nem enviar carta eu sabia, meu pai levava pra mim.
Ser daqui é como um filho caçula que nunca levou carta pra enviar.

Cedo fui atrás de abacate.
Eles comem abacate com pão.
Na salada.
Abacate com sal.

Abacate, água de côco, umas comidas e chocolate.
Não tem nada demais nosso chocolate, eu que gosto.

Ele vai cozinhar.
Todo homem peruano que conheci cozinha.
E quando um peruano cozinha, homem ou mulher, é cozinhar como se pra tv.
Inacreditável.
O gosto, a quantidade.

Só tomo chá.
Dia todo tomo chá.

Além de Joaquim e Sérgio, tem o cineclube Sua Cara.
Aqui em Niterói.
Chega na sexta.
Nessa hoje não, na próxima, dia 20.
Todas as sextas, 20 horas.
Bar do Turco.

E eu chego ao fim.
Bom dia!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

aonde vai o pé, arrasta o salto

Quero agradecer às pessoas que reclamam o entusiasmo da página.
Mês de fechar o livro, que vem daqui.

Além de trabalhar no que preciso e no que preciso.
Um preciso de interesse, outro abastecer.
Alguns preciso-preciso (com o hífen que caiu).

Não me desistam.
Todos vocês quatro, cinco, dez, por favor, não.

Daqui três dias faz um ano que comecei a escrever.
Do jeito que soube.
Um ano que estive mais aqui que aqui.
Que me fez ir pra uma quantidade de sensação.
Reconhecer lugares, outros.
Pessoas outras.
Mesmo as que já tive por perto, aqui outras.

Gritar e espremer o que não aguentei pra dentro.
Textos diários.

E agora momento de saída e entrada.
Onde não sei fazer mais o que fazia, nem fazer o que ainda não entendi como fazer.

Me cria silêncio.
Aqui.
Em alguns outros lugares.
Tentando entender o que levei, o que deixei, o que vem que não conheço.

Perceber pra onde me carreguei.
O que usar.
O que não mais.

Ouço sem parar.
No silêncio que faço.
E preciso ouvir.

Enxergar diferente, o que vejo, o que não.
Não tem mais pra ir onde já foi.
Esgotamento que faz começo do que ainda não sei que começou.

E posso ir.
Com o que ainda não reconheci.

O que mais me interessa.
Nenhuma resposta são todas.

E esse silêncio cheio.

Obrigada por tanto afeto.
De verdade, afeta.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

há há há, hó hó hó, ela tem é uma só

Já tinha desistido.

Porque depois da leiteira, outro dia estava ela na concha, que penduro na parede. Como se deitada na rede. Me olhando. Com carinho, calma. Como se meu bichinho favorito. Para quem separei a concha pra onde dormir.

Na leiteira e na concha foi como se tivesse indo ver o sono de meu filho à noite.
Vi, apaguei a luz e fechei a porta.

Não quero passar a vida assim.
Uma vem, morre, e vem de novo.
Achei que era melhor parar.
Tudo bem, fica na concha.

Talvez o descaso seja o segredo do baygon.

Porta fechada.
Dormimos, todos da casa.
Cada um na sua concha.

Chego em casa, louca de fome.
Quatro da tarde e sem almoço.
Não tenho nada pra comer.
Tomate, adoro tomate.
Salsicha.
Gosto de salsicha com tomate, salada.
Pimenta.
Na falta de comida melhor, fazer cara de gosto.

Abro o armário da cozinha, não imagina o que encontro...

Duas!!!
Uma pra cada lado, às voltas, perdidas, como se gaguejassem.
Pensaram que eu não vinha, não costumo chegar essa hora.
E eu tinha deixado essa uma.
Dormindo com a gente.
Na concha, na conchinha, luz apagada.

À noite tenho filho dormindo.
Não sei matar em silêncio.
Saí vermelha, aos berros Eu mato! Eu mato!
Uma subiu, outra ficou.
Peguei a vassoura e antes que me olhasse Pá!

Caiu zonza com três panelas.
Não perdoei, estava convicta, fria.
Pá! Pá!

Subiu.
Sumiu.
Têm um esconderijo.
Na minha concha ela fingiu, Boa noite.
De certo a outra amassada embaixo dela.
Por isso ela me olhou, esperando que apagasse a luz.

Elas não sabem.
Cada dia estou mais pronta.
Eu volto.
Eu chego.

domingo, 1 de novembro de 2009

Onde a vida melhor sabe dar

A gente tem momentos, e outros muito fortes.
Esses fortes marcam forte também as pessoas que estão com você.

Tenho marcado, como todo mundo, desde lá atrás.

Desde quase niguém com minha mãe pra todo lado.
Depois o quintal com meu irmão, com idade mais próxima. Com caminho de terra que a gente passava o dia fazendo pra depois ligar a torneira e ver a água que ia em cada curva que a gente inventou.
Com minha amiga de berço que temos até mesmo hoje, no estado de hoje, tanto disso forte juntas.
Mais adiante com minhas amigas que sempre foram, lá na cidade. Descobrindo toda idade. Com o que a gente pode em cada uma. Da mais estúpida descoberta à mais profunda possível.
A mesa de fora com meu pai.
Minha saída pra próxima cidade, com minha irmã. Em momento diferente quase igual na diferença de seis anos. Uma querendo entrar, outra saindo da faculdade. Dormindo às cinco, com tereré, buraco, vizinhos, vó, violão.
A outra cidade, a única onde fiz vestibular, querendo o frio depois de Ribeirão. Que me trás minha amiga, amiga desde a primeira saída onde a gente cantou Marisa Monte. As que viraram irmãs na república. O primeiro namorado que me contou da paixão que dói. O fim da faculdade tão bem vindo na Santa Catarina, onde vivi com outra amiga, depois mais uma, um dos momentos mais livres e de expectativas tão novas no Jabuti.
O amor de vida toda que veio lá de trás e no filho soubemos que pra sempre.
Tantos amigos e a família que é minha, nessa outra cidade que vim parar.
O olhar estrangeiro de gente apaixonada com minha amante do Peru.
Os amigos de longe que se aproximam mais do que dá.
E agora, num outro fim e outro começo, sem perceber, nos juntamos e fizemos quase o mesmo caminho. Quase o mesmo.
Disse antes de enviar o texto que encaminho abaixo: Sei que um pouco adiante, vou chorar de saudade, sentir aquilo delicioso que o passado faz com momento assim tão forte na vida, tão difícil e especial. Podendo lembrar ainda dessa partilha do tamanho que a gente faz.

A lista segue, vai seguindo.


Eu fico aqui pensando nesse medo, Tatoca.
Nesse choro.
Nessa intensidade de dias.

A gente se repete.
Eu você, você eu.

Parece que nos sabemos refém.
Que de novo estamos sendo carregadas, pra longe demais.
E que é tudo que a gente quer.
Mas dá o medo da volta.
Do peso que uma volta dessa tem.

E estamos mais frágeis.
Temos filhotes.
Não sabemos ainda como fazer.
Um lugar novo.
Estado novo.
Questões novas que a gente tem.

E isso faz a gente chorar.
Faz duvidar o quanto é vazio, o quanto é preenchimento.

A gente só vai saber conforme viver.
Conforme a gente vive o caminho vira conhecido.
Como quando a gente muda de casa. De região.
Ficamos apreensivas até ter tempo de se reconhecer ali.

Não tenho resposta nenhuma.
Temos a mesma idade por aqui.
Mas a gente se ajuda pensando juntas.

Te amo, mais que ontem. Menos que amanhã.
31 de setembro de 2009.

Onde um pauzinho boiando é navio a navegar

Enfim visitei David, nasceu há dois meses.
Pequeno que nem um ratinho não sabe do pânico que causa na gente.
Abre a boca de um tamanho que ela nem tem.
Enruga a cara que parece tartaruga.

Peguei ele tentando fazer entender Um descanço pra sua mãe, David.
Colo, em pé, deitado, experimento o berço, o brinquedo e uma música.
Resmunga, chora, se enruga, abre a boca além do tamanho da boca.
Me mantenho calma, tranquila, finjo bem.

Botei no peito de volta, no dela.
Voltei pra casa e fui procurar o kit.
Disque amamentação, reunião Niterói amigas do peito, syntocinon, homeopatia.

Já tive a mesma cara da Lóri.
Amém por eles crescerem.

Quanto mais tiquinho, mais pesado.
O meu hoje um bolotinha.
Vira-latas.

Eu sempre tive disso.
De comer qualquer coisa em qualquer lugar.
Sofisticado ou trash.
Não passo mal, normalmente não.

Na minha casa de infância pouco tinha almoço.
A gente comia pão, presunto e queijo.

Hoje não compro mais, se tem como até acabar.

Minhas amigas eram loucas pra almoçar lá em casa.
E eu sonhava com bife, arroz, feijão e salada da casa da Alê.

A gente tinha conta na padaria.

Meu pai sempre foi de facilitar.
Pouco exagerado, às vezes.
Dava mobilete e a conta no posto.
Descobriu que eu fumava e deu o pacote, da marca preferida.
Namorando? Sério? A caixinha da pílula que citei.
Ai, pai.

A conta da padaria era alta.
Ele, meu pai, avisava Tem uma doença que aparece pra quem come muito doce, diabetes.
Meu irmão descobriu, diabético.
Achei uma bruxaria.
Ele avisou antes de saber.

Aprendi a beber água na faculdade.
Minha infância toda achei que água era falta da coca-cola.
Lá em casa era.

Mal posso ver refrigerante mais.
Não tenho conta na padaria.
Como quiabo, e posso comer só quiabo.

Minha mãe também come qualquer coisa.
Quando a gente se dizia com fome escutava
Tá cheio de comida, se vira. Maçã, ovo, iogurte, milho.

E meu pequininho que me deu baile na amamentação,
Um vira-latas, graças talvez ao iogurte com milho, ovo e maçã.

Come mamão com a alegria de um toblerone.

A gente tinha há um tempo, decidido dar leite só pela manhã e pra dormir.
Esses dias que tem feito friozinho, lembrei do leite que minha mãe sempre tomou com a gente.
Esse leite que ela oferece na manhã ou madrugada, tarde ou noite,
Vem com um afeto que guardei em todo leite.
Quentinho.
Tenho feito assim com meu tiquinho.

Quebramos a regra pra trazer o afeto lá de trás.

Até pedi esses dias pra Lipe deixar molhar o pão de Tito no Toddy dele.
Tito sabe pouco de chocolate ainda.
Mas lembrei desse prazer de mergulhar o pão no leite com chocolate.
O prazer bateu nele, a gente viu.

Descobriu o não.
Dormir, não. Mamar, não. Banho, não. Doce mais doce que batata doce, não.
Não sei parar de rir.
O prazer da palavra nele contagia.
Fico louca por um beijo, mas não.

Amém que eles cresçam.
Vou lá conversar com David.

sábado, 31 de outubro de 2009

uns mal, uns bem, uns nada além

Um amigo mandou Quando você saiu, eu fiquei pensando: Será que essa menina nunca fica triste, mal humorada, estressada?

Não respondi até agora.
Nem sei se é pra responder.

Mas eu queria dizer NÃO!

Se fosse meia verdade podia.
Mas sou um bicho.
Um bicho trabalhadinho.
Quando com tempo. Sem ameaça.

Os instintos me entregam.

Lipe dizia que não podia jamais estar com Tito no colo e aparecer um bicho voador.
Sempre tem uma voz que diz: É só um bichinho.
Não há coisa mais nervosa e tensa que bicho que voa.
Bicho me faz correr, mais ainda com asa, que bate em tudo, fazendo barulho de asa nas coisas.
Quando eu corro de um bicho desse eu quebro coisas.
Se tenho algo na mão me livro logo pra não atrapalhar a corrida.
Se tenho um filho no colo talvez lance pra algum lugar.
Uma vez quebrei um ventilador em dois pedaços por estar no trajeto da fuga.

Eu não sei pensar.
Meu normal não é pensar.
Eu me esforço, preciso de tempo.

Outtra vez tava com minha amiga de infância, lá do sul, com cara de europa, subindo pra Santa Teresa.
Quis ir à pé.
Me acho inroubável.
Tenho a impressão que piso firme, olho forte e crio cumplicidade com toda gente.
Nunca tinha sido assaltada.
Eu branca de cegar, e uma polaca de olho azul que parece mentira.
As duas de casaco curitibano.
Subindo Santa Teresa à pé.
Depois da moça avisar Sobe não, pega a Van.
Pisando firme.
Eu percebi os dois vindo, dois grandões.
Tive tempo.
Pensei.
Fui até uma casa e apertei a campainha.
Eles passaram.
Um tempinho, resolvemos subir.
Viramos a esquina e os dois descendo: Assalto!
Ameaça, sem tempo.
Deixei minha amiga Curitibana de olho azul de mentira e fui mais rápida que quando bicho com asa.
Minha amiga gringa só esticou a mão, entregou a bolsa.
Eu no maior sufoco.
Correndo do grandão. Socorro!
Vi um carro e uma mulher saindo.
A única alma que vi mexer fora a nossa.
Ela trancou a porta.
Eu corri pro outro lado. Socorro!
Ele desistiu de mim.
Levantou a mão, falou Tranquilo pra mulher.
Os dois desceram e ela abriu a porta pra mim e pra minha amiga que abandonei.

Sou uma besta.
Não tenho moral.
Profunda não.
Sempre que alguém diz que estou errada eu concordo.
Não tenho convicção sobre certo e errado.
Nunca aprendi.

A chance de estar errada é grande.
Principalmente essas coisas que a gente tem que saber, lados, pessoas, grupos que sempre estão certos, outros sempre errados.

Não acredito que o ser humano está pior, não acredito em mundo justo, igual.
Acho, como achista convicta, que sempre foi assim, vezes pior, vezes melhor.

Em qualquer lugar tenho a impressão que sou de fora.
Que cheguei depois.

Tem uma cidadezinha que sempre íamos, onde os moradores somem com bandido.
Eu não sei dizer errado. Nem certo.
Não sei.
Só sei dizer que não gosto de morte, nenhuma.
De lado nenhum.

Não sei dizer praquele ex-aluno, que morava no morro e se dizia a favor do tráfico pois era comunitário, que ele estava errado. Não tenho convicção em nada. Posso acreditar em tudo.

Quando adolescente era uma das líderes, quase sempre.
E estudava em uma escola de gente rica, de valor sem valor, estudo sem conhecimento.
Fui muito ruim, tive posturas ruins, aprendi a ser mais gente depois de velha.
Morria de vergonha do que sempre fui.
Por isso sempre dou razão.
Entendo a ignorância da maldade.

Hoje não sou mais assim.
Se faço maldade é consciente.

Nem tenho mais vergonha de ter sido como fui.
Por pensar que talvez tenho mais do que se tivesse sido outra.

Não me meto em discussão de lados.
Só sei ver um por um.
Não tenho cancha pra grupo.
Sou pequeníssima.

Aqui em casa elas perceberam.
Que não mereço respeito. Que fico puta, estressada, jogo meu filho se precisar.
Fui pegar a leiteira e tinha uma delas lá dentro, com a cabeça de fora.
Uma barata na minha leiteira com a cabeça de fora.

Só agora elas fazem assim.
Nunca foram tão cruéis quando era casada.
Agora riem de mim.
Ocupam a casa às gargalhadas.

Eu queria só dizer da pergunta do meu amigo.
E dizer que sim, muitas vezes pior.
Quem me vê de perto sabe.
Peço desculpa, sempre peço.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

não se afobe não, tem carnaval

Tenho sentido enjôo.

E de alguma forma me sinto em gestação.
Lembro lá atrás de querer estar sozinha, pensando coisas que só dá pra pensar sozinha.
Como esse tempo de agora.

Não estou triste.
Nem feliz de esbanjar.
Como se contadinha.
Que dá pra mim, meu pequeno e um carinho pro amigo.

Lembro também de querer quem tivesse em situação parecida.
Assim o assunto desembrulha, desenrola, fica solto sem precisar outro que não preciso.
Tenho ido assim agora também.
E melhor que seja uma pessoa só, pra ter espaço pra esticar bem a ruga que dá.

Tenho uma paciência de Jó.
Normalmente tenho.
E sei que esse é tempo de pausa.
De reabilitação.

Não sinto pressa.
Ansiedade.
Agora não.

Não tenho ido a festa, bar, show, visto tv ou falado on-line.
Nem bebido eu tenho.
Com excessão dessa quarta que bebi no Turco.
Faz dois dias isso, sei.
Mas antes fazia uma semana e meia.
Uma semana e meia são entre 10 e 11 dias.
Algumas pessoas podem rir.
Mas quem bebe não, quem bebe não ri.

Quero estar sóbria.
Ouvir.
Ver.
Andar.

Pensar, sentir.
Faço isso todo dia.

Fico arrepiada de estar viva.
Não tem outra coisa que penso que me faz assim deliciar.
Minha única bandeira.
No sorrisinho leve, no silêncio ou na gritaria.

"O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos"

Gosto como altera, como vai, volta, gira, te acerta.
Vivo ela passando roupa.


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Inauguração Sala 1042, Lima - tema Brasil



Mário, violonista peruano, e eu fizemos a apresentação de música brasileira, com samba, bossa e chorinho.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

mas meu coração é outro

Fujo pra uma cerveja com pouquíssimos amigos,
Que amo, conheço e posso estar à noite em silêncio.

Tem uma coisa que hoje falei com minha pipoca.

Quem separa quer casar.
Uma contradição pra deixar a gente toda que separa de boca solta.

Juro, falei mesmo.

Me disse ela que se não fosse pra casar não era interesse.
Eu reconheci o buraco.
Imediato.
Disse à minha irmã, isso é falta. Preencher o que esvazia.

Depois de uma separação você cria vazios inteiros de tudo.
Amizade, parceria, cumplicidade, amante.

E fica querendo preencher isso de outro jeito, com impressão de sentimento novo.

Se conseguir que ninguém te aguente, vencer se derrubar nessa etapa, talvez sinta o prazer de estar só. O prazer de ter o coração arrumado, aconchegado, e o trono sem rei.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão

Tenho achado as pessoas chatíssimas.
Os lugares tenho achado chatíssimos também.
Não tristes, chatos.

Tem sido chato trabalhar também.
Merecia não trabalhar.
Não precisar.
Ganhar por ser.

As pessoas que amo continuo amando.
Muito.
Mais.

Mas o mundo anda chato.
Tenho achado.

Esses encontros de bastante gente.
Aceitação.
Mostrar riso.
Acenar.
Conhecer.
Ser conhecido.

E repete.

Esses encontros de bastante gente.
Aceitação.
Mostrar riso.
Acenar.
Conhecer.
Ser conhecido.

Eu não sei o que há comigo.
Tenho amor que vaza.

Mas chego em casa querendo ficar.

Biscoito com mostarda. Pipoca, com mostarda também.
Chá sem açúcar.
Ler, um filme, uma escrita.
Música. Música.
Deitar na rede com o piquinin.
Espio alguma coisa atrás do computador.

E repete.

Biscoito com mostarda. Pipoca, com mostarda também.
Chá sem açúcar.
Ler, um filme, uma escrita.
Música. Música.
Deitar na rede com o piquinin.
Espio alguma coisa atrás do computador.

Sem compartilhar.
Nem dar, nem pegar.
Ser, só.


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

É desdobrar fibra por fibra

Em um dia há tempo atrás,
num desses comuns que parecem esburacar,
que dá vazio de não saber mais o que fazer dali, pra que.
Queria chorar e dormir. Dias.

Não choro na frente do meu filho.

Quando recém-nascido (ainda não sei dos hífens), teve dificuldade de pegar meu peito. E nenhum dos dois conhece. Passam a saber juntos, quase de imediato, às vezes nem tanto. Como nosso caso.
Um dos momentos mais duros que vivi.
Nunca acho o difícil pior, sinto algo bonito quando lembro.

Mas sabia que estava num hospital que não favorecia, onde quase me fizeram uma cesárea por engano, e discuti com uma equipe inteira enquanto em trabalho de parto, sem Lipe que não deixaram entrar, o que é proibido.

Queria brigar pra não darem leite artificial, queria ajuda pra amamentar. O médico foi displicente com o pós-parto onde o útero não voltou a contrair. E um sangramento que não deixava sentar, que desmaiava.

Num desses dias ainda lá, fiquei seis com Tito, que teve icterícia, me bateu desespero que não consegui transformar, chorei de berrar. Ele chorava, de fome, não cabe suportar ver filho com fome. Tinha ali uma outra mãe, que o filho mamava bem, levei o meu pra mamar no peito dela, não pode, sei que não, fiz. Ela, a outra mãe, chorou comigo.
Uma enfermeira disse pra não chorar assim perto do meu filho, podia fazer mal a ele. Chorei lá fora.

Volto pro dia que estava com ele e com o vazio todo que bateu, mesmo com ele. Quis também sair pra chorar. Segurei meu choro. E de repente não. Deixei vir na brincadeira, chorei de berrar mais uma vez.

Não me entendeu por um tempo. Parou, me olhando.
Abriu um riso logo mais. Como se riso fosse choro. Chorei rindo. Continuei berrando. Rindo. Ele só rindo. Me abraçou. Me deu brinquedo.
Vi a gente inteiro, rindo como choro, chorando rindo.



domingo, 25 de outubro de 2009

Miss, linda, feia, Lindonéia desaparecida




Uma amiga minha uma vez disse que eu era livre, uma pessoa livre.
Ela disse que achava isso antes, mas me contou depois de saber que eu não faço as unhas das mãos nem dos pés.
Determinante.

Adoro unha bonita.
Sempre quis ter unha comprida, de mulher.
A vida toda trouxe na mão unha de criança.
Redondinha.
Pequena.

Toda manicure diz que se eu fosse toda semana lá, minha unha ia ficar comprida, quadrada.
Eu consigo ir duas semanas seguidas.
Já consegui.
Depois a idéia some, esqueço, não lembro mais.
Se lembro é porque a unha quebrou.
Ou coloquei a sandália pra sair e vi que feio meu dedão.
Como eu não reparo em unha das pessoas, fico achando que vou passar despercebida.

Chega uma hora que a gente entende como a gente funciona.

Como querer pegar sol, ficar morena.
Até hoje escuto gente falando que eu preciso.

Eu sei que posso no máximo 15 minutos frente, 15 costas, depois das cinco.
Pra osteoporose.
Nem isso faço.

Tem 4 coisas que não me habituei no Rio.
Trânsito, quantidade de arma, funk e o sol.

Apesar desse meu terror, o Rio não pode viver sem sol.
Tenho estado aflita esses tempos.
As pessoas se perdem, chegam cedo demais, andam com olho no chão.

O sol faz as pessoas aqui voltarem pra cá.
Traz o orgulho nelas, o orgulho que o carioca tem de ser carioca e de ter esse sol insuportável.

E voltam a pintar as unhas.
De vermelho.
Carioca não tem outra cor.

Se coloco vermelho parece que tenho dez feridas na mão.
Metiolate.
Não, acho que metiolate não era vermelho.
Metiolate ardia.
O vermelho era qual?
Lá em casa passava os dois. Um ardia, outro pintava.
No pé não gosto de cor, gosto dele limpo, curtinho.

Na mão minha unha não cresce, não vai crescer.
Conheço ela a 31 anos, quase trinta e dois.
Nenhuma manicure pode saber mais dela que eu.
Ou mais de mim.
Porque eu sei que não vou à manicure semanalmente.

Queria unha vermelha, comprida.
E cor morena no corpo.

Mas eu sou livre.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

e depois de partir poder voltar e dizer este aqui é o meu lugar

Há muito tempo venho querendo arrumar minha casa.
Dessas arrumações que nem Elaine pode fazer.

De olhar cada papel, pegar a roupa que caiu atrás da gaveta, limpar brinquedo por brinquedo, pôr junto livro que combina com o outro do lado.

Essa arrumação não saía.
Tentei.
Parecia sonho que paralisa.
Vocês têm?

Esses dias à noite botei Tito na minha cama, fui pro quarto dele, num impulso de ladrão.

Tirei tudo do guarda-roupa (e agora? sem hífen?), tirei o pó antigo, sentei com tudo que botei fora, separei as roupas que não cabiam mais, as que não usava, caixas de nada, reorganizei tudo nos cabides, nas gavetas.
Fui pro cesto de brinquedo, pras prateleiras, pros quadros.
Troco os panos do berço.
Encaixo Tito de volta.

Senti alguma coisa lá dentro.
Como se agora sim soubesse cuidar do meu filho.

Precisava saber de mim.
Outra madrugada e me embalo feito gente sem senso no meu quarto.

Tenho a sorte de ter meu vizinho debaixo.
Tento não fazer barulho.
E eu tentando não fazer barulho, pareço dez.
Mamutes.

Mais uma madrugada e avancei a cozinha.
Lavei todas as louças.
Separei muitas pra dar.
Outras pro lixo.

Pra sala outra noite.
Livro caindo de cima.
Amontoado de cd que despenca.

O vizinho segue bom.

Eram três horas, da madrugada.
Faltavam dvd's e gavetões.
Perdi tempo nas fotos, ah as fotos.
Arrumei cada álbum.
Uma por uma eu vi.
Coloquei Vinícius.

O melhor da arrumação é sentar no chão.
Entre sujeira, bicho morto e o que vai voltar pra dentro.
Abrir papel por papel, ler carta, bilhete e ver cada foto.
Com Vinícius.

Como é que o passado faz isso da gente?
Como é que a gente lembra às vezes de um cheiro, tem a sensação que sentiu certa vez?

Deixei os dvd's bagunçados.
Os gavetões também.
Três horas da manhã.

Hoje corri pra área de serviço.
Minha nossa.
Detesto coisa amontoada!

Como elas amontoam?
Se eu detesto?

Joguei tudo, tudo.
Quanta aranha, tadinhas.
Eu gosto de aranha.
Hoje gosto, não gostava.

Na outra casa que a gente morou, teve uma que fez casa na sala, na luz da sala. Era grande. Passou tempo com a gente. Mostrávamos a casa, sala, quarto e a aranha. Num dia, com gente lá tomando cerveja, ela começou a andar, numa linha que não sei como fez, foi indo, direção à janela. A gente não sabia o que fazer. Pedir volta? Parou toda a conversa. Todo mundo fez silêncio, ela foi indo, devagarinho. Saiu. Nossa Charlote. Lipe era apegado nela, como o porquinho.

Mesmo gostando, matei todas hoje.

Não queria achar barata.
Rezei pra isso.
Eu quero morrer quando acho barata.

E eu não quero morrer nunca! Nunca!

Levanto o balde e tchãn!
Claro.
Porque elas são assim.

Bicha burra.
Eu que tenho uma vassoura compriiiida na mão.
Pá!
Pá!
Pior da barata são os espasmos que demoram morrer.
Pá!

Tiro logo dali.
Nem satisfação de ver morta tenho.

Continuo.
Jogo água em tudo.
Detesto paninhos.
Quero água!
Xuá!
Vizinho quieto.

Me viro.
Na hora!

Quase pega meu pé.
A vassoura na mão faz giro no ar.
Pá!
Pá!
Puta que pariu!
Pulinho de descontrole.
Nojenta!

Vizinho um santo.

Xuá.
Xuá.

Ah, não!
Não é possível!
Não é possível!
Pá! Pá!
Três pedaços!
Que ódio!
Merda, merda.

Quem conhece minha área de serviço sabe, não cabem três baratas ali!

Puxo a água.
Isso demora.
Não sei o que acontece, a água aumenta na hora de puxar.

Fim!

E o banheiro?
Banheiro tem que limpar sempre, todo dia!
Ensinou a mãe da Déa pra mim quando eu morava na república.

Agora fico passeando pela casa, abrindo porta de armário, rindo, olhando embaixo de móvel, brilho de vitória, orgulho de posse.

Achei simbólico.
Como se estivesse mais arrumada.
Eu.
Matando meus bichos.
Jogando fora o que não uso.
Sabendo o lugar das coisas.
Passando adiante o que não me serve.

Com umas gavetas e uns dvd's sem mexer.
Pra graça de ter ainda o que fazer.

.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Me dê motivo pra ir embora

A rua que fica dentro do bairro Santa Rosa.
Santa Rosa nada tem de Martins Torres.

Sem saída, a única saída que tem na rua é minha casa.
Tem umas vielas, sem saída também, que não saem aqui.

Eu queria morar ali, nas vielinhas, zinhas.

Rua cheia de casa.
Cheia.
Casas de frente pra calçada.
Portão baixinho.

Não tem assalto, nem tiro.
Em três anos ouvi um.
Quando ainda morava com Lipe, a gente ouviu.
Um só.

Todos os botecos são na frente das casas.
Puxadinho.
Do Cadinho, da Dona Dina, com voz da vó da família dinossauro, do Seu Jorge e os dois aqui mais perto que não sei nome.

Os moleques que jogam bola no meio da rua.
Param pra cada pessoa passar.
Os grandes.
Os pequenos não, são envocados.

3 cavalos que descem de uma casa lá de cima, do morro.
Disputam o lixo com os cachorros.
Com a família de porco que às vezes tá por aqui, em passeio de fim de semana.

A vizinha aqui de baixo que tem árvore de goiaba.
Os meninos passam o dia pedindo.
Exigem.
A casa talvez veio depois da árvore.
Ela resmunga e dá.

A molecada desce de papelão no morro de grama aqui do condomínio.
Andam nos cavalos também.
Se puxando numa corda.

As meninas correm gritando pra apertar Tito quando a gente chega.
Os meninos também, mas quem berra são elas.

4 crianças que conversei ontem vieram gritando e correndo pra cima de mim.
Um abraço, dos quatro.
Em mim!

Todo mundo diz bom dia, olá, tudo bem.
Perguntam E o bebê?
Alguns que vejo mais, Seu Jorge de Skol 2,10, já sabe nome: E Tito? Tá bem?

Os mais bebuns são os que faço maior número de cumprimento.
Variam a mesa, às vezes o boteco.
Durante todo o dia.
Acho lindo o olhar que eles têm, bêbado.

A gorda que teve filho pertinho do meu.
Sempre cria cumplicidade.
E o seu? Tudo bem?

As crianças criadas na rua, os pais no boteco.

A vizinha de cima.
Karina, deve ser com K.
Lipe detestava, ouvia funk alto, dançando, tum-tum.
Uma gracinha. Comigo.
Já vi que ela que manda na garotada.
Tem bunda, peito, e confia.

O namorado que tinha cabelo comprido.
Vivia molhado.
Parecia usar soglu, do príncipe de NY.

Acerola e Laranjinha,
dois gêmeos que vão construir a boca da rua logo mais.
Dá pra saber.
Mal têm 1 metro e falam como se trogloditas.
- Porra! Puta que pariu! Caralho, mané!
E partem pra cima dos maiores, com os bracinhos pra trás.

Falei das casas na calçada, mal calçada tem aqui.
Ou é buraco, ou tem carro encima.

O hospital da polícia militar é aqui.
Dizem que eles não deixam nada acontecer.
O que fazem pra isso nem quero saber.

Tem o mercadinho da velha bruxa.
Uma estúpida, grosseira.
Há mais de 1 ano não compro lá.
Ando duas quadras mais pra chegar no outro que além de mais gentil, dá coragem de comprar frios.

Tem o manco abusado que mexe comigo.
Eu cumprimento engrossando a voz.
A ponto dela ficar fina.
Tito adora ele.
Acho legal.

Tem a Lory que teve filho agora.
Disse que é horrível eu ainda não ter ido conhecer.
Eu vou, semana que vem eu vou.

Minha vizinha hoje que interfonou dizendo que fez a chave da porta debaixo pra mim.
Que vende natura.

A Pri que desistiu de mim.

O Júnior que leva Tito pra escola.
Reclama de eu gostar do frio, da chuva.

A vizinha da frente que estrangula o filho.
Eu já denunciei.
Já interfonei,
- Você não sabe o que EU passo!
Tá bem. Desculpa.

A Dona Rosa que fala que pareço Hippie.

Dona Miriam.
Doceira.
Disse que cuidava mais de mim, se pudesse.

Me lembra o porto onde passei a infância.
Lá no Paranazão.
Onde o pai tinha uma casa.
Que afundou na enchente.
Sempre achei assim, afundou.
Lipe ensinou que o rio que subiu.

Lembrava mais quando dizia:
Segue até o fim, é depois do barco.
Como assim barco?
Na rua tem um barco.

Rua Martins Torres.
Durmo com barulho de sapo.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Como eu me sinto ao final do dia?

Recebi de um amigo:

"Você virou meu jornal da manhã. Acordo, faço café e vou saber o que aconteceu no mundo, de Kaspar Hauser. Quando não tenho notícia, até meu café esfria".

Lindo.
Meus amigos são lindos.
Bobos, mas lindos.
Que notícia melhor posso dar?


terça-feira, 20 de outubro de 2009

cof

Hoje me prometi que não passava das onze, ia dormir cedo!
Não sei mais fazer isso.
Não sei mais deixar a madrugada.

Ontem fiquei até quatro da manhã, lendo e vendo filme.
E sempre fui de ler meia página ou assistir 20 minutos e babar.

Agora tenho tido esse prazer que me custa deixar.

O som da madrugada.
Minha nossa.
Meio inconsciente.
Som de sonho.
Que não sabe bem se escuta.

Estou pensando aqui nessa fissura.
Pensei agora, deve ser o cigarro.

Voltei a gostar de fumar.
E na madrugada.
Vendo filme, lendo.
Só quem fumou um dia pra saber o sabor que isso tem.
Cigarro é fedido, esfumaçado.
Mas uma mulher é outra mulher depois de fumar (mais fedida).
Eu sempre fui fumante convicta.

Não queria engravidar, fiz a maior campanha aqui em casa pela adoção.
Entrei em grupos de discussão, baixei textos, me fundamentei.
Parecia mesmo que eu fazia por ideal.
Eu mesma me convenci.

Sei hoje que era o cigarro. A cerveja.
Sou mais rala que gostaria.

Mas por amor eu baixo a guarda, a proteção e bolota!
Ufa!

Fumei o último quando tive a notícia da gravidez, por acaso estava no bar, bêbada!

Nunca gostei de maconha.
Meu nariz sempre mantive virgem.
Não bebo nada de destilado. Nem vinho.

Só cerveja.
Cerveja e cigarro, gente!

Ah, já tive outra droga sim, lembrei, lança perfume!
Já foi minha droga pesada.
Minha cidade de nascença era bem perto do Paraguai, no carnaval eram caixas nas mesas do clube.

Bom também tiveram os derivados.
Loló, benzina, e algumas tentivas de cheirar esmalte depois da bebida acabar.

Lembro de passar uma tarde trancada no quarto com uma amiga ouvindo Janis Joplin com frasquinho de benzina.
Cantamos juntas aquele dia, eu e Janis.
Minha amiga assistiu.

Dizem que cigarro é coisa de gente estressada.
Bobagem.
Me sinto mais tranquila em cada trago.

Mas eu conheço meu corpo, sei que sou frágil na garganta.
Isso me angustia.
Não quero morrer nunca.
Nunca!

Vou parar.
Vou sim.
Hoje não, hoje não dá, tenho Inland Empire pra ver.

___

Marcos me disse que os textos ficaram mais fracos depois que comecei a ficar melhor.
Hoje não deixo dúvida.
Pro Lynch?

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Ass: ex-atriz

Não sei bem como começar, comecei essa primeira frase de uns três jeitos que não eram como eu queria. Nem esse é, mas vai assim que foi como deu.

Esses tempos estava numa cervejinha com Gus e ia encontrar Tatoca pra ver uma montagem.
Tati me liga pra dizer que o Baita Homem (Bait Man), estava lotado, que tinha uma indicação pra ver um outro espetáculo ali perto. Sonho de Outono.
Esse nome já arrepiou.
E a gente precisa confiar nos arrepios.

Chamei Gus pra ir junto. De maldade, talvez.
Ele disse que ia, pela companhia. De bondade, talvez.

A peça são cinco horas de defuntos que não se sabem defuntos, a gente sabe antes de começar.
E não se carrega como entretenimento, nem isso.
Tem cara de texto escolhido, estudado.

Lá pela terceira hora (engraçado que quando saímos o relógio mostrava que tinham passado 1 hora e meia de quando entramos, foram cinco, eu sei) eu estava a ponto de explodir.
Queria sair. Tatoca e Gus não me deixaram.
Enrolei um pano na cabeça pra tentar dormir, ao menos.
Gus disse que foi ruim o que fiz, que acaba com os atores.
Eu entendo o que ele diz.
Mas queria ter sido pior.

Os atores estavam sérios.
Fazendo com seriedade.

Ator é uma tristeza.
Não devia ser aceito em lugar nenhum quem se chamasse assim.

Vou me corrigir.
Ator de teatro.
O cinema e a tv têm espaço pra isso aí como profissão.
O teatro não.

Se quer fazer teatro não pode se chamar ator.
É de uma infelicidade eterna.
Quer ser musa, sempre musa.
Do diretor, do autor, dos outros atores, da família que foi ver porque tinha convite e muito pedido de por favor.
Ele precisa ser demais, o tempo todo. E bonito. E charmoso. Interessante. Reconhecido.
E pra fazer algo bom precisa saber ser ruim.
Precisa de uma coleção de vergonhas.
Com orgulho de cada uma.

Vive nessa corrida triste de provar ser bom, inteligente, versátil.
Ah, porque tem mais essa.
O ator tem que ser inteligente.
Não cabe isso no ator que se chama ator.
Teve um período em Curitiba, último ou penúltimo ano, que eu estava em 5 espetáculos ao mesmo tempo. Entre ensaio e apresentação. Pura labuta. Ganha pão. Pé preto. Roxo no corpo. Eu não tinha que pensar nada. Tinha que fazer. Os diretores que pensassem. Eu instrumento deles.

Pra ser ator precisa se enxergar ferramenta.
Como uma câmera, um escrito, uma tela.
Se usar como ferramenta.

Se chamar ator não tem nada de grandioso.
Não pode ter.
Esse glamour cafona.

Devia ser proibida a formação "bacharel em cênicas, habilitação em interpretação" (a minha).
Tinha que ser "profissional de teatro".
No teatro você tem que saber e fazer tudo.
Pra conseguir talvez, autonomia.
E poder talvez também, sobreviver.
Porque quicar na frente do figurão, nao vai te fazer artista.

Se envolvendo em tudo, tendo ferramentas, talvez ache um lugar.
O maior problema é que teatro é grupo.
Todo mundo acha isso lindo.
Mas achar grupo de gente que fale além de "teatro é minha vida" não é o mais fácil.

Todo mundo conhece ator.
Só o ator não sabe o tanto de gente que sabe.


quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Não importa, são bonitas as canções



Difícil alguma mais que essa:

Somatopsicopneumático

- Coloquei um trecho do que você escreveu, achei tão lindo.

- Que presente.

- Tá tudo bem?

- Tudo bem, melhor cada dia.

- Isso é bom. Dormiu bem ontem?

- Dormi, capoploft.

- Você voltou pra Niterói sozinha?

- Voltei, ando sozinha esses tempos.

- E isso é bom?

- É bom, tem me feito bem.

- Ficar sozinha eventualmente é ótimo, estar não é bom.

- Eu não estou, nunca estou. Procuro estar agora. Um processo solitário, essencialmente.

- Essa sua fase é importante mesmo que esteja.

- Eu tenho pensado muito, tenho me visto com algo parecido do que minha mãe sempre falou.

- O que sua mãe falou?

- Que as coisas vão ficando diferente, que um filho muda tudo, e minha vida tem outro peso, junto com ele. Isso me faz me reconhecer em outro lugar.

- Acho isso natural.

- É, eu penso e reconheço minha responsabilidade, minha necessidade de nos criar. Sinto todas as minhas escolhas fazendo efeito. O distanciamento familiar desde cedo, acompanhar outra vida, esse meu jeito de não ter medo de deixar.

- Assim mesmo. Acho que primeiro você viveu a euforia da liberdade, agora realmente passando pelo processo

- Também acho, entendendo minha posição nisso tudo, como mulher, como mãe.

- Tudo muito individual e solitário.

- É. E me sinto tomando posse disso agora. Sinto outra coisa, outro lugar, que não tinha encontrado antes, que não tinha entendido. Me sinto mais consistente. Mais forte por estar me reconstruindo sozinha, com verdade.

- Importante achar o devido lugar das coisas.

- Me sentindo real, entendendo tudo que eu escolhi.


(...)


- Tenho fumado.

- Não acredito.

- Uma merda, mas não me matei.

- Você não pode fazer isso.

- Ah, sem drama.

- Não é drama.

- É sim.

- Sei como é difícil parar.

- Moleza parar estando grávida. Difícil não voltar depois disso tudo.

- Você que está sendo dramática agora. Procura outro prazer, sexo casual.

- Deus me livre dele.

- Tem que usar seu lado homem.

- O cigarro nunca me fuma.


(...)


- Fica bem, tá?

- Estou bem, acredita.

- Beijos, querida.

- Beijo, lindeza.

- Qualquer coisa grita.

- Você também.

- Pode ligar qualquer hora.

- Você também.

- Beijos.

- Muá.

- Dorme bem.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

tem dias que a gente se sente

Conversando com um amigo falamos do fim de casos
Ele de um jeito que me parece muito sem jeito
Disse que não estava mais querendo estar com quem estava
Questionei o jeito de fazer como fazia

Eu tenho comigo que a gente pode sentir o que for
Não interessa muito sendo que é tudo que interessa
Mas na hora de resolver a gente tem que se apagar
A hora que a gente decide algo que sabe que dói no outro
A gente precisa eliminar a gente

A gente precisa entender os cuidados
Precisa saber exatamente como fazer da melhor forma
Porque fazemos parte daquilo que machuca no outro
Alimentamos aquilo em algum momento

Sendo nosso a gente precisa saber como tirar, quase sem ele perceber
Precisa conversar, fazer a mão afrouxar
Fazer confiar no que se diz, seja o que seja

E nesse momento a gente precisa ser certeiro
Precisa de uma reta
Não é justo a dúvida com quem está a espera.
Nenhuma curva pode ter.
Agora não.

Exercer amor dentro de onde quase não existe.
Uma saída só

Precisa saber amar quando não se ama mais
Como companheiro
De sempre.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

dia dele, mais um







Depois de duas semanas ouvindo peixe, peixe, peixe, peixe....

domingo, 11 de outubro de 2009

No céu de uma cidade do interior...

De volta do Rio à noite entrei no terminal das barcas.
Não gosto da praça XV, mas lá dentro é minha casa.

Chega a barca velha, demora mais mas minha favorita.
Tem janela. Sacada de frente e de costas.
Cadeiras mais baixas, mais largas.
Melhor pra quem cresceu pouco.

Meu olhar tá lá pra dentro.
Tenho olhado pouco além disso.

Vejo no canto da vista, lá embaixo, um movimento rápido por debaixo das cadeiras.
Algo preto.
Um rato?
Me preparo pra uma corrida.
Um grito.
Algum agito inesperado que vem, com certeza vem, se mesmo um.

Estava perto.
Não tanto.
Me abaixei e vi entre as cadeiras.
Esperando se mexer.
Mexeu!
Um sapo?
Agora sim eu vi, um sapo.
Um sapo preto enorme.

Não desespera menos, mais sentido só.
Fascínio alerta.
Fascinada enquanto não pula pra cá.
O olho não sai dele.
Um sapo preto enorme.

Tinha um menino atrás de mim.
Queria chamar ele pra ver.
Esperei que o bicho mexesse, pra provar.
Fez um movimento estranho.
A dúvida de novo.
Caranguejo?
Não, que caranguejo!
Um sapo, um sapo.
Movimento lateral mas um sapo.
Um sapo preto enorme.

De repente ele ameaça avançar.
Avançar significa chegar perto.
Meu pé só ponta no chão.
Fascínio.
Fascínio.

Avançou!
Veio vindo, agora vou ver.
Vou ver.

Voou!

O sapo preto voou.

O menino não estava ali pra ver.
Tentei achar.
Um sapo preto enorme voou.
Foi.

Como se um saco plástico.

Niterói.
23:00.


sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A volta dos que não foram

Encontrei uma pessoa que gosto muito, que já nos encontramos outra vez e me afastei.

Meu irmão vai ler, que gosto muito, nos comemos outra vez e me afastei.
Nem sempre se come, Rô.
Mas é por aí.

Vivi o contrário também.
Querer (precisar) me aproximar e não poder.
Em outro lugar.

E fiquei pensando nessa confusão.

"Não é uma questão de ordem ou moral.
Eu sei que eu posso até brincar meu carnaval
Mas meu coração é outro".

Sacanagem que o não ganhe sempre nessa coisa.
Tinha que ter outro jeito.
Sei lá um jeito de Dane-se, eu vou mesmo que você não queira!

Por que só o sim tem que entender, mesmo que não entenda bulhufas?
O não quer assim e assim que tem que ser...
Se ferrar!

Porque, onde é que guarda isso?
Que que o sim, coitado, faz da massa que volta?

E é ele o mais bonito, cheio de planos.
Ele que quer dar o mundo inteiro.
Manhãs acordadas juntas, viagens, projetos, sonhos, sorrisos, sempre sorrisos.
E o não que não dá nada, nada, nada, define: não!

Estúpido!
Ridículo!
Árido!

Que infertilidade!
Que incapacidade.

Essa definição é irritante!
Todo mundo sabe que é.

Uma coisa toda descombinada.

E um fica ruim.
E um fica bom.
Qual é?

Fica o ar cheio de pensamento que agoniza com opção só de morte.
A sensação boa vira buraco.
As imagens do futuro sim têm que desmanchar.
E vai você arcar?

Ah, cruz credo, pessoal.
A gente conversa tanto da vida, isso daqui não discute?

.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

É que tem uma árvore engolidora de pipas que come as minhas pipas

.
Como não está na fase mais tranquila dele tem que ter estratégia.
Mudar o assunto.
Entrou em crise, come o pé.



Fui no hospital psiquiátrico.

Ele disse que meu blog está parecendo confissões de adolescente.
Sempre foi.
Nunca me senti tão menina.
Nem quando era.



A mulher do tronco no ônibus.
Não gostou do meu tênis.
Não gostou.

Fui chamada pra uma reunião, me assustei no início.
Falaram pra ir na biblioteca, falar com a Vânia.
Não via eles.
A biblioteca era uma sala, sem livro.
A Vânia disse que o cachorro preto, da foto que me mostra no celular, come 3 pães de uma vez, pesa 60 quilos.
Nossa, como seu olho é lindo.
Já estão chegando, espera só um pouco mais, sim?



Esse som de gente aprendendo música é coisa de outra vida.
Flauta e o que? Qual é o outro?
O cobrador falou pra eles pararem.

Composição é a brincadeira.
Tecidos, retalhos, e palito de sorvete.
Depois um tema pra colocar brinquedos a partir dele.
Tema de hoje, carro.




Emília chegou.
Só mais um momento, por gentileza.
Leci entrou na sala, falou e eu não entendia.

Começou a cantar.
Era uma deles.
Tinha vários papéis amassados na mão.
Passou o John.
Entrou e eu tava de costas.
Parou do lado da Vânia, de frente pra mim.
Me olhou rápido e voltou a olhar, descobriu que não me conhecia.
Gostei dele. Parece dopado.
Vamos?
Emília, Maristela e outra coordenadora.
Produção pra eles e pra comunidade.
E o projeto pra lei. Pra conseguir verba depois.
Um grandão, com tudo.
Melhor um pequeno, funcional, pra começar.
Isso.
Vamos fazer a reunião pra ver como te pagamos.





Sentei do lado e fui fazendo o desenho junto.
Passamos um tempão assim.
Em silêncio.
Com música.

Não pode.
Uma coisa é o que você tá, outra coisa é o que produz disso.

À merda. Pára de me ler.
Já parei.



Olha aqui, quem tá aqui na foto?
E olha essa, filho!
Chateado porque, meu anjo?
Por que tá irritado assim?
Vou fazer seu mamá, vem dormir.
Aqui, chuchu, o sapo já tá aqui.
Uuuuuu
Vem, vem, vem no colo, vem.
Aaaaaaaaaaahhhhhh
Calma, filho. Calma.
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhh
Toma, toma o mamá. Vou cantar, tá?

Teria alguma possibilidade de fazer isso antes de termos certeza do dinheiro.
Não.




Você achava que me conhecia, só demorou saber o que eu era.

Nos falamos então.
Têm meu telefone?
Vou anotar.
8899

"publicar postagem"

Ontem saí da reunião e peguei as barcas.
CCBB, 20 anos de CCBB, queria assistir "Deve haver algum sentido em mim que basta".
Cheguei lá e uma fila enorme.
Espera pra receber senha.
Fui andando pra perguntar qual fila teria chance.
Encontrei a Ju, lá na frente.
Era a chance, não podia titubear.
Agarrei o braço e ela rápida: Ah! Chegou!
Não tínhamos marcado nada, há muito tempo não nos víamos.
Pra Esperando Godot.
Fiquei ali com ela.

Senha e pra fora conversar.
Ju tá bem. Tem sido difícil encontrar gente bem.
Eu me resumi pra ela em minutos.
O que tenho realmente a dizer precisa de minutos,
Depois é repetir.

Esperando Godot.
Sentamos.
Contei a ela que a última vez que fui naquele teatro, cheguei atrasada.
Tudo já apagado e eu pisando nas pessoas.
Cheguei na poltrona que podia ser a minha, mas tinham duas, uma ao lado da outra.
Virei pra trás e perguntei: Moço, pode ver o número pra mim?
O moço era o Caetano.
Não ouvi mais nada da montagem.
Ela me contou que outro dia ele passou ao lado dela,
Ela deu tchauzinho.
Ele riu.
Na volta deu dois beijinho nela, convencido pelo tchauzinho.

Depois de uns vídeos chatíssimos do Minc e do BB, começou.
O cenário é lindo.
O texto é esse mesmo do Becket que enforca a gente com humor de gargalhar.
Meio débil.
Como acordar todo dia.
Todo o tempo faz sentido esperar o que se espera sem saber o sentido que isso faz.
As duas atrizes que interpretam Didi e Gogo, queria me casar com elas.
Alcançam a gente. A gente elas.
Poderia esperar Godot por muito tempo ali. Com eles.

Fico emocionada de ver espetáculo bom.
Tenho relação de amor e ódio com o teatro.
Com o que fazem dele.
Armazém geralmente faz boa digestão.

Hoje tem de novo.
19:30.
No teatro I.
Ali embaixo, ao lado do café.
Chegar antes, lá pelas seis.
Se a Ju estiver na fila melhor.
Mesmo assim consegue.
Vale! Vale!

Todos os dias tem duas ou três montagens.
Sexta tem Till, a Ju vai estar na fila.
Domingo Toda Nudez, do Nelson, pelo Galpão.
Eu não vi da outra vez.
E a Ju vai estar viajando.

Depois voltamos de barcas.
Fomos pra cantareira tomar uma cerveja, tomamos três.
Taia, Tatá e Érica chegaram.
Saideira!
Aqui não, eu falei.
Aonde?
Ah, num lugar bonito.
Ai Mari, aonde?
Bar do Seu Xote! Vamos! Vamos, insisti.
Eles não vão estar aberto.
É lindo lá. O boteco mais feio e mais lindo que Niterói tem.

Vamos, decidimos no caminho.
Ju gemendo de vontade de fazer xixi.
Fagundes Varela fechada, dá a volta!
Ju faz som mais agoniado.
Gente, olha a praia! Voltei assim do Godot.

Torcida pro bar do mocinho simpático estar aberto.
Vamos ver, vamos ver....
Está!
Eeeeeeee
Mulher adora comemorar assim, eeeeeeee

Sai a saideira, perguntei?
Sai, saideira sai.
Só uma?
Mais, sai mais um pouco.
Maravilha. Antártica.

Fechamos o bar.
Amarelinho, disse Taia.
Rio? Perguntei.
Não, aqui perto, ali.
Nunca chamei aquele bar de Amarelinho.

Nelson Rodrigues estava lá.
Suspensório até!
Só o Nelson do bar e Domingos de Oliveira usam suspensório.
Adoro.
A Tatá não gostou dele e do amigo dele.
Disse que eles falavam coisas nojentas.
Safado, Nelson safado.

pá, pá, pá, pá, pá, pá, diu, pá, pá, pá, diu.
Bora gente?
Não fui eu que falei.
Mas concordei.
Concordamos.

Pra casa.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Sou de cobre

Estou botando DIU.
Acho que meu assunto em qualquer lugar poderia começar assim.

Fico orgulhosa, me sinto interessante.
Sabe, não é qualquer uma que pode.
Tem que ter trajetória.

Me sinto maior que quando tomava as bolinhas.
Pílula é diária.
Pra quem tem memória.
Meu DIU tem 10 anos de vida!
Posso esquecer ele lá.
Pílula é coisa de policisto.
Quando adolescente tomei pílula.

Rodrigo é o homem que me faz ter vontade de ter outro filho.
Ginecologista e obstetra.
Quando tive Tito não foi com ele, foi com um médico que ameaçou até a última hora de me fazer uma cesárea. Porque eles agem assim, acham que a palavra final é deles. Não é!
Meu parto foi normal, afinal.

Depois de Tito conheci Rodrigo.
Ir numa consulta com ele é uma das coisas mais agradáveis de fazer.
Como se no boteco com amigo dos melhores.
Ele sabe de tudo meu.
Da separação, do filho e das encrencas.
Cuida do que descuido.
Brinco que ele é o melhor homem pra se ter um filho.

Mas sabe que quando foi colocar descobriu que meu colo do útero é pequeno.
Perguntei sorrindo Não posso mais engravidar?
Ele riu e disse que eu vou mudar essa opinião assim que me apaixonar.
Disse que já mudei, mas também já voltei.

Meu DIU está em análise.
Vou nesses lugares de ultra-som pra ver meu segundo filho.
Com destino traçado até 10 anos, não mais, meu pequeno.
Começamos sabendo que era assim.

Eu tenho 31, daqui 3 meses 32!
O dobro da idade da que quando comecei a conhecer os homens comigo.

Botei óculos escuro e saí pra trabalhar.
Eu e meu DIU.

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