terça-feira, 17 de novembro de 2009

o olho prateado virou a cara

O computador parou de funcionar há um tempo atrás.
Antes já tinha queimado o teclado.
Com algumas versões do caso.

E sem ele nada resta.

Lipe ficou de ajudar.
Tinha passado por isso, tinha uma tentativa pra fazer.

Chegou um dia que não aguentava mais.
Estava com ele no telefone.
- Tem que deitar o computador com a tela pra baixo.
Mas olha...
Pou!
- Não faz isso enquanto fala comigo.

Me conhece.

Não falei na hora.
Tenho vergonha desses impulsos.

Ao mesmo tempo que preciso de um buraco pra me enfiar, às vezes,
Ê o único jeito de alguma coisa andar aqui.
Bruta-uta.

Pausa.
Não acredito como as coisas riem de mim o tempo todo.
A luz da sala acabou de cair!
Caiu agora.
No meio da frase.

E já como se vivesse em acordo.
Continuo escrevendo.
Termino o chá.
Faço chá o dia todo.

A lâmpada espalhada.

Dúvida se continuo, se páro pra limpar.

Já venho.
Uma música enquanto isso.
A que tocava aqui, agora.



Quebrou.
Ficou coisa lá dentro, a bunda da lâmpada.
Não consigo colocar outra.

Casa.
Casa.

Barata se afoga, dorme na concha de olho pra fora.
Máquina de roupa pára de centrifugar.
Luz do quarto não funciona nem com lâmpada nova.
A outra se joga, a bunda enroscada.

É assim?
Sempre foi?

Eu chego a jurar que não caso mais.
Não pelo casamento.
Pela separação.
Não quero mais separar.
Nunca.
Nem morrer.
Venho conseguindo!

Mas parece que casa é feita pra ter dois gêneros.

Sem ismos.
Nem fêmeos.
Nem machos.
A bunda da lâmpada é pro homem.

Barata é do homem!

Se bem que Lipe e eu discutíamos pra ver quem matava as cascudas.
Não pode.
Barata é do homem.

Diz que discutia mas sempre matava.
Mas enquanto não decide vem adrenalina, medo, ansiedade de vencer.
Talvez tenha sido decisivo.

Com as próximas pessoas que conhecer vou perguntar.
Antes de qualquer coisa começar.
Não quero nunca mais separar.

Se não quero casar não devia ficar aflita.
Não sei dizer disso.
A barata já foi.
Só tem a bunda, da lâmpada.

Depois de cair com a tela na mesa fiquei me olhando nele, no computador.

Comecei passo por passo, conforme orientada.
O corpo transtornado.
Tenho desespero por concluir.
Me segurei.

E a vida é outra!
Tudo funciona.

Parecia estar em outra pessoa.
A vida aconteceu como nunca tinha visto.

Na faculdade era a pior aluna de maquiagem.
Começava com uma idéia legal no olho.
Depois outra ótima no queixo.
Mais uma perto da orelha.
O outro olho tinha uma cor assim.
O nariz uma textura.
E já não via mais nada.
Uma massaroca.

A professora sempre começava gostando.
Quando voltava ria, sempre.

O maior trabalho pra conseguir fazer minhas coisas é diminuir.

Esses dias estava fazendo o cartaz do cineclube.
Nessa sexta, cineclube.
Fazia com o Gus.
Ele fazia, eu esperava.

Aí disse, pra que isso aqui? (do texto)
Pra ser performático.
Acho demais, ele disse.
Tá, tira então.

E isso?
Estranho isso.
Tira, Gus.

Posso tirar isso aqui também?
Pode, tira.

Tem outra coisa...
Tira!

Ainda bem que eles existem.
Quero encher tudo de maquiagem.

Por isso nunca pude pintar, desenhar.
Ocupo o espaço todo.
Sem poder tirar depois.

Essa máquina aqui que me faz feliz.
Uma barbaridade de coisa e depois del del del

Assim também de outro jeito.
Falo demais.
Rio muito.
Alto.
Choro fazendo barulho.
Ou me engulo, sumo.

Por isso talvez precise tanto ficar sozinha.
Sozinha encho de silêncio.
Exagero.
Sempre exagero.
Tem o espaço todo pra entupir dele.

Numa brincadeira com o sobrinho uma vez achei genial o que ele fazia.
Pequeninho começou a dizer uma palavra com letra tal.
Eu dizia outra.
Ele outra.
Achei genial.
Outra.
Outra.
Outra.

Chega Mari.

Não sei parar.
Não sei ocupar a parte de cá vendo a outra em eco.
E esse texto eu não páro também.
Quero lembrar tudo.
Dizer todas as coisas que lembro, vou lembrando.
Mais chá, mais, mais
del del del

Bruta-uta.

2 comentários:

Ana Luiza Curi disse...

ei, vi vc aí. tive que sorrir ao ler, pq te vi... em cada palavra.
adorei!!!
tanto que me inspirou um post... depois passa lá pra ver.

beijos e que os textos continuem

Tatiana Telink disse...

adoro-oro. ler tudo. de cabo a rabo. rir para danar. sabe qual foi o dia que eu descobri que meu casamento tinha acabado? quando eu parei de implorar que ele fosse matar a barata e fui eu mesma, valente, com uma vassoura na mão e trucidei a pequena em mil pedaços. me senti a exterminadora do futuro. pô, claro que barata é do homem. se não for, pra quê homem? hahahaha mari, vc é demais. seus textos me alimentam pela madrugada. obrigada pela verborragia. o que seria de nós sem a sua brutalidade-idade? linda! beijo, pipoca