domingo, 22 de novembro de 2009

Eu não tenho nada a ver com isso

Uma menina que mora aqui perto tinha nela um jeito de quem tem história pra resolver.
Não sei se chegou a falar, escutei o que disse e se não falou eu conto o que é.
Tinha lá outro alguém que não consegui enxergar, mas vi que tinha e não a escutava, não ouvia o que ela dizia.
Ela contou que não sabia mais.
Repetiu três vezes, eu ouvi.
Que tinha gostado de alguém, isso talvez não me disse.
E que ele, talvez homem, talvez outra dela, um bichinho ou um livro novo do Lourenço, não derramou borbulha por ali.
Então correu dias, 5 dias correu sem soprar, de peito cheio pra ir até lá onde não via.
De lá esticava o pé pra ver se vinha.
Sabia que não, sem saber o que dizia deixou pra ela o som dele pra escutar.
A corrida diminuiu e o passo seguia.
Pensava que ia em reta, segura da frente, do que não conhecia.
E a linha fez uma curva, sem querer a volta, seguiu a linha reta que vira.
Fez curva durante dias.
Os dias comemoraram meses, e ela ia, até palma batia.
Viu então um risco no chão que dizia de um dia, e nele ele e ela se viam.
Olhando pra trás pensou em voltar.
Mas se o risco era de um dia que não conhecia, talvez naquele dia ela ria e nem sabia.
Outro risco apareceu, disse a ela que se arrumasse, que ajeitasse os peitos e combinasse as partes debaixo e de cima.
Ela descombinada no que pensava, no que sentia, ergueu e trocou o que o risco mandou.
Três passos e ela sabia que era ali que fazia o dia.
Ela chegou e tinha lá o risco que dizia, daqui pra frente não tem mais guia.
Ele, que pode ser homem, outra dela, o bicho ou de ler, chegou depois.
Estava surpreso, olhava e não entendia.
Ela sabia, ela sabia. O risco safado aumentou a curva, meteu as partes em roda.
Mas ele tinha razão na arrumação.
E o dia passou, ela até ria, o ônibus que passou reparou, buzinou e deu bom dia.
O risco apareceu, disse que mais uma volta ela tinha.
Ela brigou, querendo dizer que queria mas que ele tinha que contar a ela o que tinha depois, onde não via.
Ele, que pode ser homem, outra, o livro ou um animal.
Mas quando? Perguntou se não podia voltar no dia da arrumação.
Tem que dar a volta toda pra poder chegar, levanta o peito e combina aqui com lá.
O risco passou. Ela gritava, sem saber se dizia, por que tanta volta? Cadê a linha reta por onde eu vinha?
Viu na frente alguém, deve ser o dia.
Quando pisou na linha não havia, sumiu.
Cansada e desarrumada foi confusa do que fazia, porque essa merda de tanta rima, que mania.
O risco apareceu no susto, pra defender a história que ele fazia.
Minha história é riquíssima, nem rima eu uso, menina, você escuta o que pode porque é estúpida, pequena e vazia.
E não falei vazia.
Chateados o risco escreveu . a menina pisou e esticou _
O risco de pirraça continuou, fazendo a menina andar e pular _ _ _ _
Não aguentava mais, queria parar.
Ele fez um sorriso de lado e escreveu, três passos pra levantar e arrumar.
E atrapalhada entre andar, vestir e erguer viu que lá na frente o risco dizia daqui pra frente adivinhação.
Fique aí, é aqui.
Ela sempre chegava, chegava, esperava.
Eu quero reta.
Ainda não.
E lá vinha ele que ele, ela, coisa ou aquilo, e a surpresa, por que a surpresa?
Tudo empinado, combinado como disse o risco ali pra trás.
O dia vira outro e o risco diz que mais uma volta talvez possa dar.
Eu não quero mais a volta pra chegar, berrou que todo mundo do prédio ouviu. Mesmo o que não sabia se havia mas via que não a escutava, vi que olhou na direção onde ela estava.
E gritou na cara de cada um com perdigoto que pulava dela pra lá:
Corri dias sem respirar, fiz reta, curva, pensei em voltar, pulei, li, ouvi essa chatice, via, sabia, levantei, ergui, combinei, chego, espero, faço, não quero mais me arrumar, não quero ter que provar, não topo mais essa volta, não quero ouvir sem dizer, não quero outro tempo que não o tempo que eu sei, não aceito mais esse, essa, isso ou aquilo assim, que não esteja caminho inteiro, não gosto mais que me diga se reta ou se curva, quero agora sair dessa porra de linha e andar pra qualquer lugar!
E foi aparecendo no chão:

v
o
c
ê

f
a
z

o

q
u
e

q
u
i
s
e
r

m
i
n
h
a

f
i
a
.

Um comentário:

Ana Luiza Curi disse...

lindo esse!
muito especial por sinal...
beijos saudosos